Miguel Ángel González Moreno
Pesquisador · Instituto de Smart Cities (ISC)
Departamento de Engenharia · Universidade Pública de Navarra

Sua pesquisa sobre o aproveitamento de resíduos da indústria do café —a viabilidade da vermicompostagem de spent coffee grounds e silverskin— nasceu de um projeto de I+D entre a universidade e uma PME navarra, financiado pelo Governo de Navarra e pelo Fundo Europeu de Desenvolvimento Regional (FEDER).

Nesta entrevista ele conta como foi começar uma linha de pesquisa do zero em plena pandemia, a surpreendente variabilidade dos resultados experimentais, e por que acredita que a coordenação entre ciência, política e empresa é a matéria pendente da remediação ambiental.

Pergunta 1
O que o levou a pesquisar este tema?

Meu interesse neste tema surgiu de certa forma casual. Tive a oportunidade de participar de um projeto de I+D entre a Universidade Pública de Navarra e uma pequena empresa navarra, no âmbito de um projeto conjunto financiado pelo Governo de Navarra e pelo Fundo Europeu de Desenvolvimento Regional (FEDER), orientado ao projeto de uma máquina de vermicompostagem.

A partir dos diversos testes necessários para o desenvolvimento do projeto, surgiu a possibilidade de dar um enfoque além do puramente técnico e converter parte do trabalho em pesquisa científica com potencial de publicação. Isso nos levou a desenvolver uma linha de trabalho com rigor científico-técnico e alto interesse acadêmico.

Com o tempo, o contato contínuo com esta temática fez com que fosse ganhando interesse de forma natural, até o ponto de me envolver plenamente nela.

Pergunta 2
Qual foi o maior desafio durante esta pesquisa?

O principal desafio foi partir praticamente do zero em termos de conhecimento específico do tema. Diferentemente de outros casos em que existe uma linha de pesquisa consolidada, neste projeto tivemos que enfrentar uma temática nova para o grupo.

Embora já trabalhassem com valorização de resíduos, principalmente materiais inorgânicos e por outras vias como reciclagem ou incineração, neste caso nos concentramos em resíduos orgânicos, o que implicava desafios completamente novos tanto a nível técnico quanto experimental.

A isso se somou o contexto da pandemia de COVID-19, que representou uma dificuldade adicional importante: interrupção de ensaios, limitações operacionais e a necessidade de manter organismos vivos, como as minhocas, durante períodos de inatividade. Tudo isso fez com que os inícios fossem especialmente complexos.

Pergunta 3
O que mais te surpreendeu nos resultados?

O que mais me surpreendeu foi a variabilidade dos resultados. Às vezes coincidiam com as hipóteses levantadas, mas em outras se desviavam completamente do esperado.

Além disso, ao contrastar os resultados com a bibliografia científica, percebe-se que em muitos casos os estudos publicados tendem a refletir principalmente resultados positivos, o que pode gerar uma percepção um pouco enviesada. Isso leva a questionar em certos momentos se o trabalho está sendo realizado corretamente, embora na realidade essa variabilidade faça parte natural do processo de pesquisa.

Pergunta 4
Se pudesse mudar algo na forma como a remediação ambiental é abordada hoje, o que seria?

Considero que seria fundamental reforçar a coordenação entre a pesquisa científica, as políticas públicas e a aplicação prática no campo.

Atualmente existe uma lacuna significativa entre a geração de conhecimento no âmbito acadêmico e sua implementação real em empresas e na sociedade. Reduzir essa distância permitiria uma resposta mais eficaz, rápida e sustentável frente aos problemas ambientais e climáticos que enfrentamos atualmente.

Pergunta 5
Algum conselho para quem está começando na área?

Recomendaria abordar este campo com interesse e paixão genuína, já que a pesquisa requer um grande investimento de tempo, esforço e constância, e os resultados nem sempre são imediatos nem visíveis.

Também é importante não ter medo de perguntar e apoiar-se em pessoas com mais experiência. Isso não só ajuda a resolver dúvidas, mas também facilita a criação de redes de contato, o intercâmbio de ideias e o desenvolvimento de novas oportunidades e sinergias.

Na MycoData acreditamos que a ciência se constrói compartilhando conhecimentos e experiências. Agradecemos profundamente ao Miguel Ángel por seu tempo e generosidade ao responder estas perguntas.

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